sexta-feira, 18 de abril de 2014

O IMENSO/DESPREZO/DA MINHA DAMA/NA CAMA/




                                   O IMENSO
                                    DESPREZO
                                    DUMA
                                    DAMA
                                    NA CAMA


I

Na cama,
A minha dama
Não me toma,
Porque não me ama;
Não me beija,
Nem sequer
Que haja
Um contacto
Do (outro) sujeito
Com que partilha a mesma
Cama.


II

O jejum
Não é só dum,
Mas também do outro
Que mesmo não sendo
Fanático
Em termos religiosos.


III

Dormimos
Como se fôssemos
Dois homens
Ou duas mulheres;
Ninguém
Toca em ninguém;


IV

Quaresma
Afasta a alma
Da minha dama
Mesmo estando deitados na mesma
Cama;
Mas isso,
Este desprezo,
Não é nenhum
Drama,
Porque está em jejum,
Porque ela não me ama.

V


As duas crianças
Lindas
Que adotámos,
Não lhe dizem nada,
Porque ela também não “queda”
Pelas crianças.

VI

Hoje
Estamos a atravessar
Uma das piores
Crises
Desde que nos juntámos,
Desde que nos casámos.

VII

Eu, neste momento
Em que escrevo
Este pensamento,
Nem um euro tenho!
Apenas algumas moedas
Que nem sequer ultrapassam
Os quarenta cêntimos.

VIII

Ontem à tarde,
Tive que recorrer
À taberna, à loja
Do senhor Zé
No Prior Velho
A fim de abastecer à casa dos bens essenciais que não tínhamos: arroz (3kgs),limões, açúcar,  laranjas, maçãs, no valor de 10,59 cêntimos.
Porque para mim, é uma grande ofensa, é uma situação abominável ver as crianças a chorarem de fome ou porque não isto ou aquilo; é uma grande vergonha, um vexame a  situação de pobreza (disfarçada) extrema. O sorriso, é muitas das vezes, o disfarce do desprezo que tenho de mim mesmo, da forma precária e triste que estou a viver! Logo de manhã, antes de sair de casa, tinha dado ao Didier (neto-.sobrinho da Natty) 1,50E para ir à Sacavém comprar esparguetes para o almoço e também knorr para que a família possa comer à mesa. Que pena à situação vergonhosa que estamos a a passar, a atravessar! Até parece que não estou a trabalhar! Tenho até vergonha de encontrar e ver outras pessoas nas piores condições que a minha, a mendigarem e a pedirem esmolas na rua! Estando perto das pessoas que acabo de descrever, sinto medo, receio e pena de encaminhar (caminhar) para o mesmo. Até 4ª-feira, estamos à espera dos párocos cinquenta e poucos euros que a Segurança Social nos concede de ajuda para as nossas duas crianças, subsídio de família.
Eu estou sentado numa das esplanadas da Avenida João XXI, paralela à Avenida de Roma, vindo do Areeiro, mas não tenho como pedir uma bica enquanto estou escrevendo este pensamento, este relato, este facto.
Numa esplanada contígua, ia eu a passa, vi aí que a bica custava quarenta cêntimos. Parei e procurei na minha carteira ou na algibeira algumas moedas, pois, tinha a certeza que tinha pelo menos,(aproximadamente)quarenta cêntimos. Mas, infelizmente, não tinha! Faltavam muitas moedas para as pretendidas! Apenas, na carteira, estavam nove cêntimos! Mas, mesmo assim, sentei-me e acrescentei mais algumas linhas neste pensamento feito à jato, no caderno ou bloco que tinha como o meu fiel companheiro. Escassos minutos, aparece uma empregada do Café que me perguntou ou que desejava, ou melhor que me disse: “Olhe, sr, nós s não servimos à mesa”. E eu, tentei balbuciar algumas palavras para me defender e ela retorquiu:” A mesa é alugada, tem um custo”. Minutos depois de terminar o meu pensamento, o registo do meu raciocínio no caderno, continuei o percurso tortuoso.




JARDIM DE SACAVÉM(2ª-FEIRA,19H14 MINUTOS),14 DE ABRIL DE 2014-04-14.

                                                     KANKAMBAL (NDO)




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